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CRÔNICA.AQUILES O AQUI E AGORA - MARIO NITSCHE




...Mas, a glória e a morte
andarão de mãos dadas
e sua vida será curta.
Meu filho,
você não vai voltar...




AQUILES O AQUI E AGORA

O escuro no espírito da mulher era mais denso que as sombras que flutuavam lá fora. As sombras na noite davam um bonito contexto para os braços da lua que passeavam de um lado ao outro iluminando cantos da floresta ou do caminho por onde a mulher andava em direção ao rio que se deixava ver em pedaços através das árvores seculares e vegetação.

Mas as trevas na mulher não tinham lua nem luz e nem se moviam com elegância. Eram extáticas como a morte.

Levava em seus braços um lindo menino.  Ela chegou ao rio Estige. O rio que vinha do Hades. Fechou os olhos e sentiu o rio vivo, marulhando canções estranhas em línguas desconhecidas aos humanos e deuses. Murmúrios. Percebeu-o sinistro, presente... Um leve ricto nos lábios bonitos revelou que confirmara a sua decisão. Tétis tirou as roupas da criança, privando-a do calor e segurança. O menino sentiu que algo ia acontecer e começou a chorar, agitar-se. Segurou-o pelos pés e mergulhou o filho nas sombras escuras do Estige.

Ela era Tétis a deusa filha do Oceano e casada com Peleu. Peleu era rei e descendia de Zeus.  Mas, era humano. Ela teve com o marido sete filhos que puxaram pelo Homo sapiens do pai! Seis deles Tétis passou por um fogo sagrado para eliminar o humano de suas naturezas e ficarem deuses... e eles não colaboraram. Morreram. A deusa não desistiu com o último. Descobriu que o mergulhando no Estige ele seria invulnerável. E naquela noite ela conseguiu seu filho de corpo fechado ao fio da espada e outras armas. Para ela, ser invulnerável era um pouco... ser deus.

No Estige, nenê ainda, o maior guerreiro de todas as épocas, Aquiles, enfrentou a primeira batalha: o medo, o desconhecido e a falta da segurança do colo da mãe... e o rio! Aquiles começou cedo sua vida de aventuras. Naquela noite ele chorou muito... e não foi a última vez.

Educação finíssima. No Monte Pélion foi cuidado pelo centauro Filira e sua mulher, a ninfa Cariclo. Um pouco mais taludinho exercitou-se na caça, o domar cavalos selvagens e a medicina. Aprendeu a tocar lira e cantar.  O grande centauro Quiron o treinou na prática das virtudes dos antepassados: o horror à mentira. A moderação em tudo; resistência às más paixões à dor e o desprezo aos bens desse mundo. Era alimentado com iguarias estonteantes... (procure um restaurante chique e você vai ver o quanto custa!) como entranhas de leões e javalis.

Aquiles estava pronto para guerra e atos heróicos.  Ulisses o convidou a uma expedição a Tróia! Caminhando à beira mar e pensando, Tétis apareceu e falaram.  

- Filho, se você for a Tróia terá grandes emoções! Sentimentos intensos, fortes. Aproveitará o dia e cada fato como se fosse o último... Será lembrado sempre. Escreverão livros sobre você! Daqui a muitos séculos um grande ator, Brad Pitt vai representá-lo numa arte que não temos ainda, o cinema. Milhões o verão... A glória o acompanhará em Tróia e na vida... Mas, a glória e a morte andarão de mãos dadas e sua vida será curta. Meu filho, você não vai voltar. Se ficar aqui não terá glórias e ganhará uma vida bonita, normal, calma, longa e sábia; terá mulher e filhos e filhos dos seus filhos. Logo será esquecido depois dos seus netos. Meu filho, o mundo não valoriza o que tem o valor de uma vida construtiva e sem glórias. O que você escolhe?

- “Eu escolho a glória mãe! Eu vou para Tróia!”.

Durante nove anos os gregos ficaram diante dos muros de Tróia. Só no último ano aconteceu tudo que foi descrito na Ilíada. Nove anos de pirataria, combates, mortes e saques creditados aos gregos por toda a vizinhança.  

A unidade...

No décimo ano a guerra começa de verdade entre troianos e gregos ao descompasso de uma crise entre Aquiles e Agamêmnon. Aquiles chama Agamêmnon à uma reunião com os chefes, para deixar livre a bela Criseide que fora entregue a ele como despojo de Tebas. O pai da moça, sacerdote Crises tinha falado com Apolo que muito brabo, mandou a peste dizimar as linhas gregas. Agamêmnon, pressionado cedeu, mas instou Aquiles a passar para ele a linda Briseide que o moço obtivera como parte de despojos também. Que negociata! Aquiles que convocara a reunião foi obrigado a ceder, ficou muito, muito irado; zuretou e não brincou mais! Recusou-se a sair para o combate e por isso os gregos, mesmo com a peste findando começaram a perder.

A política divina...

Tétis falou com Zeus que deu aos troianos a vitória por nove dias e assim forçaram Agamêmnon a mandar uma embaixada a Aquiles para ele lutar. Aquiles não concordou. Agamêmnon promete a ele vinte das mais belas mulheres de Tróia, mais uma das filhas dele e para fechar o negócio... Briseide!  Nada. Aquiles estava com um bico enorme na sua nau vendo o combate chegar ao acampamento e os gregos perdendo. O moço era teimoso... Pátroclo seu melhor amigo (e segundo as boas línguas da época mais que amigo!) com medo que os gregos queimassem as naus, pediu licença para ir a luta. Aquiles consente e empresta a sua armadura ao amigo. Pátroclo confundido com Aquiles teve algum êxito. O grande troiano Heitor o viu e após um formidável combate o eliminou.

A crise...

Aquiles soube da morte do amigo e no desespero deu um grito imenso. Uma dor inenarrável o acometeu. Tétis ouviu os gritos do filho, veio e prometeu a ele uma armadura linda e novinha em folha em troca da que Heitor tirara do cadáver de Pátroclo. Que mãe!  Aquiles corre sem armas ou armadura para o campo de batalha e seus gritos afugentam os gregos que lutavam com os troianos pelo corpo de Pátroclo.

As pazes...

A noite passou e na manhã seguinte Aquiles procurou Agamêmnon e pede a ele o esquecer-se do estresse. Reuniões são sempre cansativas.  Agamêmnon pede desculpas e devolve ao moço a muito bonita Briseide na qual ele não encostara um dedo sequer! Imediatamente Aquiles regressou aos combates. A guerra sempre continua. O seu brioso cavalo Xanto, por uma fração de segundos e milagre ganhou o dom de falar e disse a Aquiles que o momento da morte dele estava próximo. Aquiles não estava nem aí e não deu bola ao aviso. Aquiles avança em direção a Tróia num festival de mortes sem precedentes. Os deuses participaram dando jeitinhos aqui e ali segundo suas preferências.

E o bom senso de um deus...  

Escamandro era o deus do rio do mesmo nome que corria pela planície de Tróia. Ele estava consternado com a quantidade de lixo, plástico, latinhas de cerveja, sofás velhos, liquidificadores quebrados e dejetos humanos lançados no rio. A poluição era brutal. Agora Aquiles juncava as águas com um mar de cadáveres. O rio não tinha mais condições de lidar com tudo aquilo. A natureza sempre reage. Vide o Jornal Nacional. Quando o guerreiro passou pela vau do Escamandro, o deus do rio procurou matá-lo numa correnteza que fez subir as águas como um muro. Mas, - e sempre existe um “mas”... O “mas” é o espírito da história - Hefesto, deus do fogo chegou junto e forçou Escamandro a desistir... E Aquiles passou.

A luta...

Aquiles chega às portas de Tróia e encontra Heitor. Este fica com medo. O prato da balança de Heitor já apontava para o Hades... Apolo o deixou e Atena insuflou nele um desejo incontrolável de enfrentar Aquiles. Foi vencido e gravemente ferido. Antes de morrer pediu a Aquiles que entregasse seu corpo a Príamo. O moço nem ouviu. Aquiles perfurou os calcanhares de Heitor, passou uma correia de couro a qual amarrou no seu carro e arrastou o corpo do herói espartano de um lado para outro em frente às muralhas. Aquiles só parou para regressar ao acampamento ao funeral de Pátroclo onde chorou desesperadamente. No dia seguinte voltou para mais um passeio sinistro, puxando Heitor frente os olhos estarrecidos dos troianos. E isso por doze dias.

Zeus que já estava cheio do teatro de horrores mandou Tétis avisar Aquiles que os deuses estavam furiosos com o seu desrespeito aos mortos. Imagine só! Logo depois Príamo, rei de Tróia, veio com uma embaixada reclamar o corpo do filho e foi bem recebido por Aquiles que entregou o que restara de Heitor ao seu pai, solicitando uma polpuda soma em ouro como resgate.

Aquiles, a última batalha...

Um dia ele e seus guerreiros empurraram as tropas troianas até a muralha de Tróia e ele continuou com a sua conhecida arte do morticínio indiscriminado. Apolo veio pessoalmente e mandou-o parar com a luta. Aquiles ignorou o pobre deus. Tudo era emoção pura! Apolo subiu as muralhas e buscou Páris - cujo bom gosto em termos do sexo feminino o levou a raptar Helena, o que forneceu um bom pretexto para a guerra política e econômica. Páris viu Aquiles na batalha e mesmo sabendo ser ele invulnerável levantou o arco, apontou cuidadosamente para as costas dele...  Sentiu, percebeu que algo ou alguém invisível baixava levemente o arco... Paris deixou que o imponderável o liderasse, sentiu "o momento", soltou a seta envenenada que zumbiu, voou e cravou-se no calcanhar de Aquiles; o único ponto vulnerável eram os calcanhares do guerreiro aonde a água do Estige não chegara por causa das mãos de sua mãe.

Aquiles o herói morreu jovem...

Aquiles já era. A Guerra de Tróia continuou. A guerra sempre continua.

Uma constatação...

Um arremedo de Aquiles vive hoje. Nunca o AQUI E AGORA foi tão forte.  Emoções requeridas para tudo e compradas! Vivemos o HOJE emprestando do dia de amanhã. Curtimos muito, muito. Não fazemos mais perguntas essenciais. O mundo virou uma grande diversão para uns e desastre para muitos. Há o mesmo desejo de glória no ar!  O tipo Aquiles é um estado de espírito. Mas observe que não vivemos as aventuras como ele o fez!  Imaginamos... Poucos nos manipulam e criam aventuras artificiais para nós. Nosso campo de batalha é virtual. Nós só jogamos joguinhos de guerras virtuais. Queremos a glória como Aquiles, mas alguém as cria para nós e ela custa barato.

Alguns poucos exércitos lutam com mercenários para ou impor uma ideologia ou defender um bom campo de negócios.

Não somos heróis!

...E aparentemente estamos muito fortes e invulneráveis. Seria o calcanhar de Aquiles da nossa civilização a deteriorização dos nossos heróis?

Mario Nitsche
Novembro de 2.009. Curitiba































 
 
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